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Sonia Almeida Terapias

O que as nossas raízes contam sobre nós

  • Photo du rédacteur: Sonia Duarte de Almeida
    Sonia Duarte de Almeida
  • il y a 4 jours
  • 8 min de lecture

Compreender o transgeracional sem culpar a nossa árvore familiar












Poderia ter escolhido qualquer árvore para falar das nossas raízes. Escolhi a oliveira. Aquela que molda as paisagens da minha região, aquela que, por vezes, é podada quase até ao tronco e que, ainda assim, volta a brotar. Algumas atravessam séculos, por vezes até milénios. Marcadas, retorcidas, transformadas pelo tempo… mas sempre capazes de produzir novos rebentos. Talvez seja, afinal, uma bela forma de falar das nossas próprias histórias familiares: não escolhemos todas as nossas raízes, mas elas não determinam, por si só, a forma como continuaremos a crescer.




Há raízes que deixamos para trás.

Há aquelas às quais regressamos.

Há aquelas de que nos orgulhamos e aquelas cuja história, afinal, conhecemos muito pouco.

Há países que os nossos pais ou avós deixaram, por vezes por necessidade. As casas de família. As tradições. As receitas que continuamos a preparar sem sequer sabermos há quantas gerações existem. Uma língua, um sotaque, uma forma de celebrar as festas, de educar os filhos, de falar — ou de não falar — sobre as emoções.

E depois há tudo aquilo que se transmite de uma forma muito menos visível.

Uma forma de amar.

O medo de que falte alguma coisa.

A necessidade de ser forte.

A dificuldade em dizer não.

Uma determinada visão do casal, da maternidade, do sucesso, do dinheiro ou do trabalho.

Nas últimas semanas, tenho falado muito, aqui e nas minhas redes sociais, sobre a criança interior, a parentalidade, a transmissão, as partidas e o regresso às raízes.

E, no fundo, todos estes temas nos levam à mesma pergunta:

o que é que, na pessoa que sou hoje, me pertence realmente… e o que aprendi, interiorizei ou recebi daqueles que vieram antes de mim?

É precisamente em torno desta questão que podem surgir o trabalho transgeracional, a psicogenealogia ou ainda as constelações familiares.

Mas, por detrás destas palavras, por vezes utilizadas um pouco por todo o lado, o que fazemos realmente?

E, sobretudo: porquê escolher uma ferramenta em vez de outra?

O transgeracional: de que estamos a falar?



Todos chegamos a uma família que já existia antes de nós.

Com a sua história.

Os seus valores.

Os seus hábitos.

As suas crenças.

Os seus acontecimentos felizes e as suas feridas.

As suas formas de demonstrar afeto, de gerir conflitos, de educar os filhos, de falar da morte, do dinheiro, do corpo, do sucesso…

E, por vezes, os seus silêncios.

Não é, portanto, surpreendente que a nossa história familiar participe na nossa construção.

Algumas transmissões são muito concretas.

Uma criança que cresce a ouvir constantemente:

«É preciso trabalhar muito para merecer alguma coisa.»

poderá, quando adulta, ter muita dificuldade em permitir-se descansar sem sentir culpa.

Numa família em que várias gerações de mulheres tiveram de assumir tudo sozinhas, uma menina poderá aprender muito cedo que ser mulher significa ser forte, independente e nunca pedir ajuda.

Numa família que viveu a emigração, a guerra ou grandes dificuldades económicas, a segurança material poderá continuar a ocupar um lugar muito importante várias décadas depois.

Isto não significa que a nossa árvore genealógica determine o nosso futuro.

Significa simplesmente que também aprendemos a viver através do contacto com aqueles que nos educam e com a história familiar na qual crescemos.

As transmissões intergeracionais e as consequências familiares dos traumas são, aliás, objeto de estudo na psicologia e noutras áreas.

Mas é igualmente importante fazer uma distinção.


A psicogenealogia: olhar para a nossa árvore de outra forma

Uma árvore genealógica clássica mostra-nos, geralmente, quem descende de quem.

A psicogenealogia propõe acrescentar-lhe uma outra leitura.

Podemos, nomeadamente, construir um genossociograma, uma representação de várias gerações na qual aparecem não apenas os laços familiares, mas também diferentes elementos importantes da história da família:

nascimentos, mortes, uniões, separações, migrações, profissões, algumas doenças, acontecimentos marcantes, ruturas, relações particulares, repetições conhecidas, ausências e, por vezes, segredos ou assuntos não ditos, quando são conhecidos.

Quando a história é colocada diante de nós, algumas coisas podem tornar-se mais visíveis.

Não porque o desenho da árvore tenha algum poder mágico.

Mas simplesmente porque podemos observar de outra forma aquilo que nunca tínhamos visto no seu conjunto.

Imaginemos um exemplo.

Uma mulher sente uma enorme culpa sempre que dedica algum tempo a si própria.

Ao explorar a sua história familiar, percebe que a mãe dedicou praticamente toda a vida aos filhos e que a avó também tinha criado uma família numerosa, colocando sistematicamente as suas próprias necessidades depois das necessidades dos outros.

Isto não significa:

«A minha bisavó é responsável pela minha culpa.»

A pergunta poderá antes tornar-se:

«Que representação da mulher e da mãe recebi na minha família? E, hoje, continua a ser essa a mulher que quero ser?»

É aqui que está toda a diferença.

O objetivo não é encontrar um culpado na árvore.

O objetivo é abrir uma possibilidade de escolha.



E as constelações familiares?

As constelações familiares utilizam uma abordagem diferente.

Enquanto a psicogenealogia se apoia bastante na história familiar conhecida e na sua representação, uma constelação procura sobretudo colocar no espaço uma situação ou um sistema relacional.

Dependendo da prática, pode ser realizada com várias pessoas, mas também individualmente, recorrendo a figuras, objetos, folhas de papel ou outros suportes.

É assim possível representar simbolicamente diferentes membros de uma família ou diferentes elementos de uma situação.

A pessoa pode observar os lugares, as distâncias, as aproximações, as exclusões sentidas ou determinadas dinâmicas relacionais.

Por vezes, ver uma situação diante de nós permite sentir ou compreender algo que as palavras, por si só, ainda não tinham conseguido revelar.

Mas, mais uma vez, parece-me essencial colocar uma precaução.

Uma constelação familiar não é uma máquina do tempo.

Aquilo que surge durante uma constelação não permite afirmar com certeza o que um avô pensava, o que um antepassado sentia ou o que realmente aconteceu há três gerações.

Considero aquilo que emerge, antes de mais, como um material simbólico que permite à pessoa explorar a sua própria representação da situação.

Uma hipótese pode abrir uma porta.

Não deve transformar-se numa verdade imposta.

Psicogenealogia ou constelação: qual é a diferença?

Podemos resumir de uma forma simples.

A psicogenealogia pergunta sobretudo:

O que conta a minha história familiar e que repetições ou transmissões posso observar nela?

A constelação pergunta mais:

Como represento e sinto hoje este sistema e o lugar que nele ocupo?

As duas ferramentas podem, por vezes, ser complementares.

Mas não são necessárias para todas as pessoas nem para todas as situações.

É precisamente por isso que, num acompanhamento, prefiro partir da pessoa e da sua problemática antes de decidir qual a ferramenta a utilizar.

Não é a pessoa que deve adaptar-se à ferramenta. É a ferramenta que deve ser escolhida em função da pessoa.

« Libertar a nossa árvore»: uma expressão que merece ser explicada

Ouvimos muitas vezes falar de «libertação transgeracional» ou de «libertar a nossa árvore».

Mas o que significa realmente esta expressão?

Para mim, libertar a nossa árvore não significa apagar o passado nem pretender modificar aquilo que aconteceu antes do nosso nascimento.

Não podemos reescrever a história.

Podemos, no entanto, modificar o lugar que ela ocupa hoje na nossa própria vida.

O trabalho poderá então passar por quatro movimentos:

Identificar. Compreender. Diferenciar. Escolher.

Identificar aquilo que aprendi ou recebi.

Compreender em que contexto isso se poderá ter construído.

Diferenciar aquilo que pertence à história familiar daquilo em que eu própria quero tornar-me.

E depois escolher aquilo que quero conservar, transformar ou deixar de reproduzir.

Porque, evidentemente, nem todas as transmissões são feridas.

As nossas famílias também nos transmitem recursos.

Coragem.

Tradições.

Saberes.

Humor.

Uma cultura.

Uma língua.

A capacidade de recomeçar.

Uma forma de cuidar dos outros.

Trabalhar sobre a nossa árvore não significa, portanto, procurar apenas aquilo que está mal.

Significa também reconhecer tudo aquilo que nos permitiu chegar até aqui.

Curar não significa perdoar a qualquer preço

Este é provavelmente um dos pontos que mais me importa esclarecer.

Em alguns discursos ligados ao desenvolvimento pessoal, ouvimos por vezes que é absolutamente necessário perdoar para conseguir seguir em frente.

Não partilho dessa visão quando o perdão se transforma numa obrigação.

Compreender alguém não significa desculpar aquilo que fez.

Compreender que um pai ou uma mãe também cresceu num ambiente difícil não apaga as consequências de determinados comportamentos.

Reconhecer as feridas de uma geração anterior não nos obriga a negar as feridas da geração seguinte.

Podemos compreender.

E estabelecer um limite.

Podemos seguir em frente sem retomar uma relação.

Podemos fazer as pazes com uma parte da nossa história sem declarar que tudo o que aconteceu era aceitável.

Podemos até nunca chegar ao perdão e, ainda assim, construir uma vida diferente.

Por vezes, o caminho não passa por dizer:

«Eu perdoo-te.»

Passa simplesmente por conseguir dizer, interiormente:

«Compreendo melhor aquilo que aconteceu. Reconheço o que te pertence e o que me pertence. E agora decido o que vou fazer com isso.»

A cura não deveria transformar-se numa nova obrigação.

E os nossos antepassados não são responsáveis por tudo

Existe também a armadilha inversa.

De tanto procurarmos explicações na história familiar, podemos acabar por transformar os nossos antepassados nos responsáveis universais pelas nossas dificuldades.

A minha relação não funciona? É transgeracional.

Tenho medo de que me falte alguma coisa? É por causa do meu bisavô.

Repito um comportamento? É a minha árvore.

Isso seria esquecer algo essencial:

também temos uma história pessoal.

Vivemos experiências.

Fazemos escolhas.

Conhecemos pessoas.

Evoluímos numa determinada época, sociedade e ambiente.

A nossa personalidade, as nossas aprendizagens e muitos outros fatores também participam naquilo em que nos tornamos.

O transgeracional pode, por isso, ser uma grelha de leitura entre várias outras.

Não uma resposta universal.

Caso contrário, arriscamo-nos simplesmente a substituir:

«Eu sou assim, não posso fazer nada»

por:

«A minha árvore é assim, não posso fazer nada.»

E, no fundo, não teríamos libertado absolutamente nada.

Quando podem estas ferramentas ser propostas num acompanhamento?

É uma pergunta perfeitamente legítima quando um profissional nos fala, de repente, de psicogenealogia, constelações, criança interior ou hipnose.

Porquê esta ferramenta?

Para que vai servir?

Tem o direito de fazer estas perguntas.

A psicogenealogia pode ser interessante quando determinadas repetições familiares, modelos educativos, lugares ocupados na família ou a própria história familiar parecem merecer ser explorados.

O genossociograma pode ajudar a colocar essa história no papel para obter uma visão mais global.

A constelação familiar pode ser proposta quando parece útil representar simbolicamente uma dinâmica relacional ou familiar e observar a situação a partir de outro ponto de vista.

O trabalho com a criança interior pode fazer sentido quando determinadas reações atuais parecem fazer eco de necessidades, aprendizagens ou feridas mais antigas.

E outras ferramentas — EFT, hipnose, trabalho emocional, entre outras — podem depois ser consideradas quando já não se trata apenas de compreender, mas também de trabalhar aquilo que determinadas situações despertam hoje.

Por vezes, várias abordagens podem complementar-se.

Por vezes, uma única é suficiente.

E, por vezes, estas ferramentas simplesmente não são as mais adequadas à situação.

Saber acompanhar também significa saber não explicar tudo através das ferramentas que temos à nossa disposição.

E, afinal… o que vamos transmitir?

É talvez aqui que o transgeracional se cruza mais diretamente com a parentalidade.

Porque trabalhar sobre as nossas raízes não significa apenas olhar para trás.

Significa também olhar em frente.

Todos recebemos alguma coisa.

E todos transmitimos alguma coisa.

Através das nossas palavras.

Dos nossos comportamentos.

Dos nossos medos.

Das nossas formas de amar.

Das nossas tradições.

E também dos nossos silêncios.

Talvez, então, a pergunta mais importante não seja:

«O que é que os meus antepassados me fizeram?»

Mas antes:

«Agora que compreendo um pouco melhor aquilo que recebi, o que quero transmitir, por minha vez?»

Regressar às raízes sem voltar atrás

Desde que vivo em Portugal, a noção de raízes ganhou, para mim, um significado particular.

Em algumas famílias, uma geração partiu.

E, por vezes, outra regressa.

Os caminhos cruzam-se.

Os filhos crescem entre várias culturas.

Algumas tradições desaparecem, outras regressam naturalmente.

E compreendemos, pouco a pouco, que regressar às nossas raízes não significa necessariamente voltar atrás.

Algumas raízes alimentam-nos.

Algumas histórias constroem-nos.

Outras pesam mais.

E depois existe tudo aquilo que nós próprios vamos plantar.

Trabalhar sobre a nossa história familiar não deveria, por isso, ter como objetivo descobrir quem é responsável por aquilo que somos.

Trata-se antes de compreender aquilo que recebemos para podermos finalmente perguntar-nos:

O que quero guardar?

O que quero transformar?

O que me recuso a transmitir?

E o que escolho construir a partir daqui?

Porque conhecer as nossas raízes não nos obriga a passar toda a vida junto delas.

Elas também podem dar-nos a estabilidade necessária para escolhermos a direção em que queremos crescer.


Tal como a oliveira, nem sempre escolhemos a terra onde mergulham as nossas raízes. Mas, mesmo marcados pelo tempo e pelas tempestades, podemos sempre fazer nascer novos rebentos.


« Os mais belos ensinamentos não nascem dos acontecimentos, mas dos ecos que deixam em nós. Por vezes, basta aprender a lê-los… nas entrelinhas. »


 
 
 

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