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Sonia Almeida Terapias

Todas aquelas chaves que não abriam a porta certa

  • Photo du rédacteur: Sonia Duarte de Almeida
    Sonia Duarte de Almeida
  • 15 août
  • 5 min de lecture

Durante muito tempo, procurei a chave certa.

Aquela que finalmente abriria a porta e me permitiria compreender.

Experimentei muitas. Algumas chamavam-se amor, outras espiritualidade, cura, sinais, respostas que procurava vezes sem conta.

Mudava de chave, convencida de que, mais cedo ou mais tarde, a fechadura acabaria por ceder.

Simplesmente ainda não tinha percebido que insistia em abrir a porta errada.


Quando compreender se torna uma forma de deixar de avançar


Há encontros que abalam uma vida.

Relações que vêm tocar em algo tão profundo dentro de nós que parecem despertar feridas cuja existência, por vezes, desconhecíamos.

Então, procuramos compreender.

Porquê esta pessoa? Porquê esta relação? Porquê este sofrimento? Porque é tão difícil partir, deixar ir, aceitar? Porque temos a sensação de viver sempre as mesmas histórias, apenas com rostos diferentes?

Conheço bem estas perguntas.

Procurei respostas na psicologia, na minha história, na história da minha família. Também as procurei na energia, nas cartas, nos sinais, nas sincronicidades, nas curas e nessa dimensão mais subtil da existência em que continuo a acreditar.

Porque sim, acredito na energia.

Mas acreditar não nos dispensa de olhar.

E sentir nunca deveria impedir-nos de observar os factos.

É provavelmente uma das coisas mais importantes que aprendi.


Quando o subtil se torna um refúgio


Já me aconteceu procurar tanto uma resposta que deixei de ouvir aquela que a realidade me estava a dar.

Mais uma tiragem.

Mais uma cura.

Mais um sinal.

Uma «mensagem do outro».

Mais uma explicação.

Mais uma chave.

Quando sofremos de dependência afetiva, podemos, por vezes, deslocar essa dependência sem realmente a resolver.

Talvez já não dependamos apenas de uma pessoa: passamos a depender da próxima resposta, da próxima tiragem, da próxima cura, de alguém que nos tranquilize dizendo-nos que aquilo que esperamos acabará por acontecer.

A forma muda.

O mecanismo pode continuar exatamente o mesmo.

Eu vivi isso.

Também fui enganada por pessoas que pareciam ter sempre uma resposta para me dar, por vezes precisamente aquela que eu precisava de ouvir naquele momento.

Não conto isto para rejeitar hoje tudo aquilo que pertence ao mundo energético ou espiritual. Seria negar uma parte de quem sou e daquilo que pratico.

Conto-o porque aprendi a fazer uma distinção essencial: uma ferramenta pode ajudar-nos a questionar; nunca deveria impedir-nos de o fazer.


Voltar aos factos


Hoje, quando tento compreender uma relação, já não procuro uma única explicação.

Observo.

Analiso.

Tento ganhar distância.

O que aconteceu realmente?

O que foi dito?

O que foi feito?

E, por vezes, o que nunca chegou a ser feito?

O que é que esta situação desperta em mim?

Porque é que este medo é tão forte?

Porque preciso de ser escolhida, tranquilizada, reconhecida?

Será mesmo esta pessoa que estou a tentar manter na minha vida… ou aquilo que o seu olhar me permite sentir, momentaneamente, sobre o meu próprio valor?

E há ainda outra pergunta que se tornou essencial para mim: É a primeira vez que vivo algo assim?


É aqui que o meu olhar se vira também para a psicologia, para a psicogenealogia, para os padrões familiares, para as repetições e para as crenças que fomos construindo ao longo da nossa história.

Porque nunca entramos numa relação completamente livres daquilo que vivemos.

Entramos com a nossa história.

Com as nossas feridas.

Com aquilo que aprendemos sobre o amor.

Com aquilo que observámos.

Com aquilo que recebemos e, por vezes, com aquilo que nos fez terrivelmente falta.

E algumas relações têm essa capacidade quase vertiginosa de tocar exatamente onde dói.


Talvez a relação não seja o destino


Durante muito tempo, pensei que certos encontros estavam destinados a ser vividos até ao fim.

Hoje, pergunto-me se alguns deles não estarão simplesmente aqui para nos pôr em movimento.

Não tenho a resposta.

E, no fundo, acho que prefiro assim.

Já não quero certezas prontas.

Quero poder continuar a procurar, a aprender, a questionar aquilo que ontem pensava ter compreendido.

É também assim que a minha forma de acompanhar evolui.

Posso utilizar uma perceção energética, um oráculo, a radiestesia ou a intuição. Mas quero também regressar ao concreto, questionar comportamentos, observar repetições, explorar a história familiar e compreender os mecanismos que podem estar em ação.

E continuar a formar-me.

Porque um acompanhamento não deveria criar novas dependências.

Deveria, tanto quanto possível, ajudar o outro a reencontrar o seu próprio discernimento.

A certa altura, a pergunta já não pode ser apenas: «O que é que o outro sente por mim?»

Passa a ser: «O que é que eu sinto e o que quero fazer da minha vida?»

E esta pergunta muda muita coisa.


A chave que procurei em todo o lado


Acho que, durante muito tempo, confundi ser amada com sentir-me digna de ser amada.

Por isso, quando o amor, o reconhecimento ou a escolha do outro se tornam a prova do nosso próprio valor, colocamos sobre essa pessoa uma enorme responsabilidade.

E entregamos-lhe também a chave.

A chave da nossa felicidade.

A chave da nossa confiança.

A chave da nossa capacidade de avançar.

Até ao dia em que começamos a compreender que ninguém deveria possuir essa chave no nosso lugar.

Amarmo-nos a nós próprios não significa deixarmos de precisar dos outros.

Não significa tornarmo-nos invulneráveis, independentes de tudo e de todos, ou deixarmos de sofrer.

Talvez signifique simplesmente começar a deixar de abandonar quem somos para conseguir o amor de alguém.

É aprender a escolhermo-nos também.

E digo mesmo aprender.

Porque eu ainda estou a aprender.


Deixar aquela porta


Há algo de tranquilizador numa porta diante da qual permanecemos durante muito tempo.

Mesmo estando fechada.

Conhecemos os seus contornos.

Conhecemos a maçaneta, a fechadura, cada tentativa que já fizemos.

Ir embora significa aceitar não saber o que encontraremos depois.

E o desconhecido assusta.

Gosto muito da imagem da lagarta e da borboleta, mas, por vezes, esquecemo-nos do que acontece entre as duas.

A metamorfose não é apenas bonita.

Implica já não podermos continuar a ser exatamente aquilo que éramos.

Algumas crenças caem.

Algumas relações mudam.

Algumas certezas desaparecem.

E, por vezes, dói.

Não me tornei alguém que tem todas as respostas.

Espero, aliás, nunca me tornar essa pessoa.

Quero continuar a questionar-me, a aprender, a confrontar as minhas crenças com aquilo que observo, a aceitar mudar de opinião quando aquilo que descubro me convida a fazê-lo.

Mas há uma coisa de que hoje tenho a certeza: não quero passar a minha vida diante de uma porta fechada.

Posso tentar.

Posso ter esperança.

Posso procurar compreender.

Posso até voltar uma última vez para ver se a fechadura não mudou.

Mas, se essa porta continuar fechada, chegará o momento de voltar a guardar as chaves no bolso e retomar o caminho.

Haverá outras portas.

Algumas abrir-se-ão.

Outras não.

E talvez a vida não seja, afinal, essa enorme procura pela porta certa, mas tudo aquilo que acontece no caminho entre cada uma delas.

Hoje, quero também olhar para a paisagem.

Aproveitar as pessoas que caminham ao meu lado.

Descobrir aquilo que não tinha planeado.

Voltar a enganar-me, provavelmente.

Aprender, certamente.

E, quando surgir a próxima porta, voltarei a procurar a chave.

Só que, desta vez, vou lembrar-me de procurar primeiro dentro de mim.

Porque, no fundo, já passei tempo suficiente à espera de começar a viver.


Vivemos todos os dias. Morremos apenas uma vez.


Até breve, por entre as linhas…


Sónia


E se também parasse um instante para observar qual é a porta que hoje se apresenta no seu caminho?


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